OLIMPÍADAS DE BARCELONA92


OLIMPÍADAS DE BARCELONA – 1992

Eu era formado em Publicidade e tinha acabado de me formar em Jornalismo na turma de 1989 da FIAM quando, em 1990, o professor Roney me convidou para ser professor assistente da disciplina de Telejornalismo. Assim, em abril de 1991, conheci Pedro Tadeo Zorzetto, que havia sido convidado para ser o professor titular da disciplina nas turmas da manhã. Eu seria seu assistente. Meses depois de nos conhecermos, ele foi cobrir os Jogos Pan-Americanos em Cuba, e fiquei dando aula em seu lugar.

Quando retornou, ficamos muito próximos, e ele me convidou para acompanhá-lo na cobertura dos Jogos Olímpicos de Barcelona 92. Na época, Tadeo era coordenador-chefe de esportes da Rádio Band. Os Jogos aconteceriam de 25 de julho a 8 de agosto de 1992.

Como eu estava de férias e havia me programado para visitar meu sobrinho André Neto, que morava em Lisboa, e depois conhecer algumas cidades — Lisboa, Madri, Paris, Bruxelas, Munique, Zurique e Roma — aceitei o convite.

Como eu já tinha comprado a passagem de ida e volta, ele me credenciou como produtor/comentador, e tive hospedagem paga durante os Jogos pela Rádio Band. No dia 22 de julho, cheguei de trem por volta das 7h da manhã à Estação Plaça de Catalunya, em Barcelona.

Entrei em um ônibus e tentei chegar ao IBC, o Centro de Imprensa das Olimpíadas.
Um tanto perdido e com fome, atravessava uma avenida quando vi um carro da TV Bandeirantes parado no farol. Fui até eles e perguntei se conheciam o Pedro Tadeo e como chegar ao IBC. Eles disseram que sim e me indicaram o caminho.

Antes, parei em um boteco espanhol para comer alguma coisa — afinal, eram 7h da manhã. Pedi o que vi no balcão e me serviram café com leite e uma porção de polvo.
Isso mesmo: polvo. Claro que não comi; fiquei no pão com manteiga mesmo.

Alguns minutos depois, cheguei ao IBC. Tadeo me recebeu e me levou para fazer o credenciamento. Ao receber minha credencial, descobri que eu era:

DE LIMA, DELCI BATISTA – COMMENTATOR – R. BANDEIRANTES – OTI – BRA

Voltamos para a sala de produção da Rádio Band, onde ele me apresentou à equipe: Candinho, Flavio Adalto, Eduardo Savóia e o técnico de som. Passei a fazer parte da cobertura dos Jogos Olímpicos de Barcelona, onde as maiores emissoras do mundo produziam seus conteúdos, com os melhores jornalistas e os melhores atletas do planeta nos presenteando com recordes e profissionalismo.


PRIMEIRA EXPERIÊNCIA NO IBC

Em 1992, não conheci muito a cidade de Barcelona — trabalhar nas Olimpíadas é puxado. A equipe da Rádio Band estava hospedada em um hotel; eu e Tadeo ficamos no apartamento de uma senhora espanhola, que tinha uma filha de cerca de 12 anos. Ela fazia parte dos voluntários da “família olímpica”, que ofereciam espaço em suas casas para jornalistas do mundo inteiro. Eu e Tadeo éramos dois desses jornalistas. Tínhamos café da manhã, um quarto com banheiro só para nós e roupas de cama e banho fornecidas pelo Comitê Olímpico.

Normalmente saíamos do apartamento por volta das 10h e retornávamos às 23h.

Nos primeiros dias, fui uma espécie de “faz-tudo”. Tínhamos uma sala grande no IBC, onde eu dava suporte ao Éder Luiz, que fazia as narrações. Depois, passei a ajudar na pauta com Eduardo Savóia e Candinho.

Aliás, Candinho era um velhinho simpático, que entendia de tudo — um especialista em Jogos Olímpicos. Um dia, me chamou para assistir à final dos 100 metros livres da natação. Quando Gustavo Borges apareceu em 4º lugar, Candinho saiu gritando: “Ele é segundo! Ele é segundo!” Minutos depois, o placar corrigiu e deu a medalha de prata ao Gustavo. Esse era o Candinho — e eu estava lá.

O IBC era maravilhoso. Para minha felicidade, havia máquinas de Coca-Cola por todos os cantos — e o melhor: de graça. Muitas lojas do McDonald’s, praça de alimentação e máquinas de xerox espalhadas pelos corredores.

O IBC, parecia o Centro de Convenções do Anhembi, mas com emissoras de rádio e TV do mundo inteiro ocupando o espaço. Naquela época, ninguém sabia o que era internet. (risos)

Como eu era — e ainda sou — um cara legal, acabei fazendo amizade com muitos jornalistas, que viviam me pedindo favores: Juarez Soares, Orlando Duarte, Fernando Vannucci, Luiz Ceará, entre outros.

Ficávamos todos no mesmo corredor. Era uma alegria trabalhar e encontrar grandes jornalistas que depois se tornaram amigos, como meu professor de Rádio, Márcio Bernardes, Cléber Machado, Roberto Cabrini, Fátima Bernardes e muitos outros.


ENCONTROS INESQUECÍVEIS

Uma noite, Luiz Ceará, repórter do SBT, me chamou para assistir a uma partida de basquete. Entrei no carro do IBC e me sentei entre Luciano do Valle e Hermano Henning. E o melhor (ou pior): ouvir Hermano dizendo que precisava fazer uma matéria sobre boxe e não tinha ideia de como fazer.


O jogo era Brasil x Croácia. Fiquei sentado ao lado de Luciano do Valle ouvindo-o narrar. Um privilégio.

Outro dia, novamente com Eduardo Savóia, fomos assistir uma partida de Basquete, aliás a partida: Brasil x Dream Team, isso mesmo com, Oscar, Marcel e cia contra Michael Jordan, Magic Johnson, Larry Bird, Pippen, Barkley. Perdemos, mas vivi esse momento histórico para o nosso basquete.

Depois do jogo, fomos ao vestiário entrevistar os jogadores brasileiros e os americanos. Registrei tudo com minha câmera — imagens que guardo até hoje.

TRABALHO E MAIS TRABALHO

No IBC, trabalhávamos das 10h às 23h por causa do fuso com o Brasil. Assisti apenas a essas duas partidas de basquete e a um jogo de futebol no Camp Nou: Itália x Estados Unidos.

A seleção brasileira não se classificou para as Olimpíadas naquele ano.

Um dia, saí com Flavio Adalto para conhecer o Vila Olímpica, onde encontrei vários atletas e jornalistas, como Roberto Cabrini e Ernesto Paglia. Gravei depoimentos em vídeo com eles.

Numa noite, saímos com Luciano do Valle e a equipe para jantar perto das Ramblas.
Nesse dia no fim da noite, vi na rua pela primeira vez a Tocha Olímpica passando ao meu lado — arrepiei inteiro.

ESTÁDIO OLÍMPICO DE MONTJUÏC

Outra experiência inesquecível foi assistir à abertura dos Jogos no Estádio de Montjuïc.

A Rádio Band não tinha ponto de transmissão nem ingressos, mas fomos assim mesmo — eu, Savóia e o Dr. Menon. Com jeitinho brasileiro, fomos avançando até conseguir entrar na arquibancada, graças a um aceno salvador de Pedro Bial.

Como não tínhamos um ponto de transmissão de uma rádio, ficamos num ponto que pertencia a rádio sueca que estava vazio. Ligamos para Tadeo e perguntamos se podíamos transmitir via celular — uma novidade em 1992.
 Ele autorizou, e Savóia narrou a abertura dali mesmo.

Estávamos ao lado do camarote das autoridades do COI. Próximo à grade estava o presidente Fernando Collor, que nos cumprimentou.

Assistir Montserrat Caballé e Freddie Mercury cantando Barcelona foi indescritível.
Ver a tocha sendo acesa por uma flecha lançada de dentro da pista fez muita gente chorar — eu incluso.


Sem dúvida esse foi um dos momentos mais emocionantes da minha vida.
— O outro foi o nascimento da minha filha Luísa, em 22 de março de 2006.

Saí de Barcelona antes do fim dos Jogos e não vi a seleção do vôlei ganhar a medalha de ouro. Vi no sofá de casa quando cheguei ao Brasil.

No voo de volta, vim conversando com Rogério Sampaio, medalhista de ouro no judô, que anos depois se tornou diretor-geral do COB.

AGRADECIMENTO

Tadeo é professor nos cursos de pós-graduação em Marketing e Comunicação que coordeno e que montei com o professor Raul Fonseca, produzidos e comercializados pela Phorte Educacional.

Eu e Tadeo deixamos de dar aula na FIAM, mas tenho muito a agradecer ao meu querido amigo dos bons tempos da faculdade. Continuamos nos falando com frequência.