SILDO GONÇALVES DE AZEVEDO


Sabão

Falar da Rua9 é sempre um momento de lembrar uma época essencialmente muito gostosa.
Eu poderia lembrar centenas e centenas de histórias gostosas, engraçadas e até emocionantes. Porém eu não vou contar uma história e, sim, lembrar momentos que particularmente eu curtia muito. Mês de junho, quermesses, frio, mês do meu aniversário. Por todos esses motivos, para mim esse mês era (e continua) especial e, nas várias etapas da nossa vida na Rua9, nós curtíamos de maneira intensa.
Durante muito tempo, houve na rua um terreno que ficava em frente à casa do senhor Eugênio e da dona Delza, pais do Ricardo, do Marco e do Carlinhos Monaco, e que outrora fora a casa da família do Paulinho japonês, que morou lá numa outra época bem distante.
Esse “terreno”, com o passar do tempo, meio que virou um clube dos então jovens da rua, e era nele que, entre outras tantas coisas, fazíamos nossas festas juninas.
Festas bem-organizadas das quais quase todos da parte de cima da Rua9 participavam. As mães preparavam pratos típicos da época, quentão, vinho quente, e outras delícias juninas.
Nós, os moleques da rua, éramos quem organizava as acomodações para os mais velhos, a fogueira, as brincadeiras e a limpeza do terreno.
Era uma delícia, todos vinham, conversavam, riam, comiam, bebiam e passavam momentos de confraternização entre vizinhos.
E quando os mais velhos iam embora, ficávamos nós em volta da fogueira contando histórias e aventuras de nossas jovens vidas.
Tudo na vida se modifica com o passar do tempo, aqueles jovens hoje já não existem mais, porém as lembranças, essas serão para sempre.
O que trago da Rua9 é a lembrança de uma infância maravilhosa, uma adolescência gostosa demais e uma juventude inigualável, que me tornaram hoje num adulto feliz e agradecido.

Sildo Gonçalves de Azevedo


FAMÍLIA GONÇALVES AZEVEDO


Francisco Gonçalves de Azevedo

Tenho em minha memória vários momentos maravilhosos que vivi nessa Rua9, onde passei toda minha infância e adolescência com meus irmãos, Sabão e Coalhada.
Porém lembro muito bem uma brincadeira que tínhamos chamada polícia e ladrão.
Nós nos dividíamos em duas equipes, que geralmente eram os mais velhos de um lado, o Sabão, o Rubão e o Ricardo, e os mais novos, eu, o Luís e o Chiquinho, filhos da dona Ruth, e o Delço.
Quando éramos presos, geralmente sofríamos castigos não muito brandos. Tanto que um dia pegaram o Chiquinho e o deixaram preso quase uma tarde inteira em um barracão que tínhamos feito no terreno ao lado da casa da dona Lúcia do senhor José.
Nesse dia, estávamos eu e o Luisinho fugindo do Sabão, que era o pior deles. Já estávamos bastante cansados quando entramos no quintal da casa da dona Hortência, onde havia uma escada encostada no muro que dava para entrar no quintal da dona Ruth, mãe do Luís e do Chiquinho.
Nesse momento, o Luisinho começou a gritar apavorado “Ele vai nos pegar, ele vai nos pegar”.Aí tive a ideia de afastar a escada do muro e ameacei o Sabão dizendo “Não vem, não, senão eu solto a escada em cima de você”. Ele não acreditou e tive de empurrar a escada.
Foi um estrago, algumas telhas quebradas, um vaso em pedaços e alguns arranhões no meu irmão, mas conseguimos escapar.
Até hoje, quando me lembro desse dia, ouço os gritos apavorados do Luís: “Ele vai nos pegar, ele vai nos pegar”.
Coisas de crianças e boas lembranças do meu passado.


FAMÍLIA GONÇALVES AZEVEDO


Marcio Gonçalves de Azevedo

FSaudosismo – sau·do·sis·mo – sm

1 Apego aos princípios políticos, sociais, morais do passado que já não se aceitam mais.

2 Tendência a valorizar e elogiar o passado ou coisas do passado. Sim. Saudosismo. Sinto muito saudosismo da época que morei na Rua9.
Foram 28 anos vividos em um ambiente em que tivemos muitas alegrias e, em outros momentos, algumas tristezas, mesmo assim, hoje você não encontra em nenhum outro bairro da cidade a amizade que tínhamos. Quantas situações vividas, passaríamos horas, dias, semanas, relatando tudo isso. Foram muitas passagens, algumas de caráter privado, outras não.
Mas todas elas fizeram parte de nossas vidas na Rua9.
Os tempos mudaram, a modernização com aplicativos de conversa e redes sociais chegou e com eles o distanciamento entre as pessoas. Na minha época, quanto você queria saber como estava seu vizinho, você ia até a sua casa para falar com ele. Hoje basta um clique. Mas não estou aqui para elogiar ou criticar a modernidade.
O fato é que sua aplicabilidade para inúmeros fins é magnifica, e aqui estou para contar uma pequena passagem da fase em que vivi na Rua9.
Natural do Bairro Ferreira, que depois teve seu nome alterado para Jardim Monte Kemel, sou o caçula de uma família de cinco pessoas. Nessa época, meu pai, o senhor Sildo, e minha mãe, a dona Maria, moravam na Rua Mario de Moura Albuquerque, a rua da feira de sábado, ou simplesmente a Rua 5.
Nosso bairro era muito bom para viver e crescer com liberdade e de forma saudável.
Ah! Que saudade da Rua9!
Éramos uma “grande família”. Tratávamo-nos com muito respeito, tanto entre aqueles vizinhos mais ranzinzas (da forma mais carinhosa), quanto aqueles mais amáveis. Era uma rua predominantemente masculina e o mais curioso é que em quase todas as famílias havia um ciclo de três gerações.
A família Jacob Moreira, família Lima, família Mônaco, família Cardoso de Sá e não diferentemente com a família Gonçalves de Azevedo, com meus dois irmãos mais velhos, o Sildo (Sabão) e o Chicão.

A fama da Rua9 era tão grande, que a garotada das outras ruas do bairro vivia por lá, brincando, fazendo bagunça, jogando taco, futebol de rua com gol formado de tijolo (aliás logo mais comento um fato sobre esse futebol), etc. Ou seja, relacionavam-se com todos nós, como se fossem residentes daquele logradouro, o que era muito natural à época, mas que só acontecia na Rua9.

Uma das minhas lembranças acredito que tenha acontecido por volta de 1981, o dia da semana era um sábado. E, como todo sábado, a rotina da Rua9 era que o autor deste livro, meu vizinho Delço, na época com uns 19 anos de idade, ficava lendo o Jornal da Tarde, encostado no muro da casa da dona Teresa, mãe do Clidinho, sentado em sua almofada de veludo vermelho, e nós e os outros amigos da rua parávamos e ficávamos um bom tempo conversando sobre a vida e vendo as pessoas indo e voltando da feira. Naquela época as pessoas ficavam mais à vontade para lavar seus automóveis na rua e a criançada ficava brincando mais livremente.

Numa dessas tardes, meu vizinho José Aderbal, irmão do Delço e filho da dona Elizia, mais conhecido como Zé Baiano (naquela época não havia nenhum problema neste tipo de tratamento pessoal. Aliás, esse tratamento demonstrava o respeito e a afetividade que existiam entre todos os moradores), pois bem, estava ele lavando seu fusca em frente à sua casa, hábito de todos os moradores e que ocorria pontualmente todos os sábados. A garotada estava jogando sua tradicional pelada, o futebol de tijolo. Isto poque os gols eram feitos de tijolos, onde eram contados seus 5 passos devidamente entre um tijolo e outro.

Em um dado momento, a bola foi parar perto do fusca do Zé, o “pois é”, como era apelidado o bólido (apelido dado pelo meu pai, o senhor Sildo). Ele ficou a observar o desfilar daquele futebol arte da garotada, quando em um dado momento ele proferiu aquele codinome que marcaria minha infância, na forma de como meus amigos me tratariam dali para a frente não só na Rua9, mas em todo o bairro.

Naquele momento, a partida pegando fogo, a garotada gritando e correndo, chutando a bola pra lá e pra cá. Uma bola dente de leite meio murcha, mas que para nós representava a “Tango” da Adidas. O Zé Baiano, neste momento, se voltou para a arena daquele clássico e disse: “Toca para o COALHADA”.

Ninguém sabia quem era este tal Coalhada. Ao indagarem ao Zé quem era o tal jogador, ele respondeu: “O Marcinho. O Marcinho do seu Sildo”.

A molecada começou a rir e me disse que o Zé havia me chamado de Coalhada. Nesse momento não titubeei. No reflexo, desmontei o nosso gol e com um arremesso de uns 40 metros, mandei o tijolo para cima do Zé.

Por sorte errei. Não acertei ele, tampouco o “pois é”. Ele começou a gargalhar em seu estilo habitual e depois disso o apelido grudou. Lá se vão 39 anos de Coalhada (eu tinha 11 anos na época).

O apreço por sua amizade nunca diminuiu, pelo contrário, a amizade que foi construída na Rua9, estará sempre presente em nossas vidas. O Zé com seu jeitão boa gente, e era mesmo, sempre estava pronto a ajudar as pessoas. Quando cortei minha perna no escapamento da Brasília do senhor José da dona Lúcia, foi ele quem me socorreu. Nas tardes de domingo, quando o Timão jogava no Morumbi, ele sempre me levava. Chamando pelo muro da casa dele, que era colada com a nossa, dizia: “Seu Sildo, posso levar o Marcinho no jogo do Corinthians”.
E lá ia o Zé com a molecada para o Estádio do Morumbi. Sempre nos divertíamos muito com esta e outras histórias da Rua9.

Saudades!

Não somente daquelas tardes de sábado, mas também das de domingo. Entre tantas outras histórias, optei por contar esta breve passagem, por entender que seria uma forma de homenagear o Zé Aderbal, um velho amigo, um vizinho, “um parente”, com quem tivemos a alegria de conviver por anos, mas hoje não está mais entre nós.
Em junho de 2016, estava em Serra Negra quando recebi a notícia de seu passamento.
Voltei no mesmo momento, mas infelizmente não tive oportunidade de me despedir. Mas de onde está, ele sabe do respeito e carinho que temos por ele.
Ele deixou muitas lembranças.
Esta é uma das histórias vividas na minha Rua9.
Saudades!

Marcio Gonçalves de Azevedo